Estudos recentes mostram que algo como 50 mil produtores rurais geram mais de 87% de todo o valor bruto da produção agropecuária do Brasil. Isto é equivalente a quase 12% dos fazendeiros do Brasil. Os outros 88% dos produtores rurais lutam com extrema dificuldade, sem conhecer o que seja sucesso e prosperidade. Em Goiás, acontece situação muito parecida.

Segundo esses mesmos estudos, o que explica o sucesso de uns poucos não é mais o tamanho da propriedade nem a disponibilidade de dinheiro para tocar o negócio. O que faz a diferença é a intensidade com que adotam tecnologias adequadamente.
Mas, todo produtor sabe que usar tecnologia intensivamente não é coisa simples. O produtor sabe que isto tem custos que vão além dos custos dos insumos, das máquinas e dos serviços necessários, que precisam ser minimizados e os fatores de produção otimizados. Sabe que é preciso facilidade no acesso à tecnologia desejada e na venda da produção obtida. Afinal, não faz sentido adotar novas tecnologias se não há segurança de que vai conseguir vender a produção ampliada, a um preço justo.

Em outras palavras, não só é preciso que o produtor seja “capaz” de usar a tecnologia, o que nem sempre é verdade, como também é fundamental que esse uso seja “possível”, o que nem sempre acontece, principalmente sem assessoramento técnico. O que torna o produtor capaz é a gestão eficiente de sua propriedade para esse fim. O que viabiliza o uso da tecnologia é a organização do entorno de sua fazenda para facilitar essa adoção.
Tudo isso só é possível com assessoramento técnico permanente e constante. O uso de uma tecnologia numa fazenda não se dá na primeira tentativa. São necessários anos de ajustes para que a fazenda esteja organizada o suficiente para extrair o máximo de eficiência da tecnologia. O mesmo se dá com a organização da cadeia de negócios que constitui o “entorno” da propriedade.

Garantir o assessoramento técnico permanente e próximo do usuário da tecnologia sempre foi uma ideia fundamental no processo de organização da indústria no Brasil. Montado em base privada, a assistência técnica industrial conseguiu chegar a praticamente todo canto. O mecânico, da oficina ou o técnico em eletrodomésticos são os consultores técnicos, que nos ajudam a manter carros e geladeiras funcionando e a obter o máximo dessas tecnologias.

O negócio agrícola no Brasil não foi organizado assim. Por muito tempo o Brasil apostou na ideia de um assessoramento técnico para a agricultura exclusivamente como serviço público, mas nunca conseguiu fazer com que ela fosse presente e constante para todos os produtores. O que fez a diferença para o pequeno grupo de produtores rurais bem sucedidos foi que eles, individualmente ou em associação, assumiram o assessoramento técnico como um investimento, tão essencial para o sucesso do negócio como são os insumos e as máquinas modernas. Eles sabem, por experiência, que, se dividido entre todos, este custo fica muito barato.

Goiás não é diferente do resto do Brasil. Aqui só prospera quem tem assessoramento técnico próprio, constante e sempre presente para ajudar na gestão da sua propriedade e na cadeia de negócios no entorno dela. Quem não tem, sofre. Também aqui, nunca foi possível prover assessoramento técnico público para todos. Não há o menor sinal de algum dia o Estado venha a ter esses recursos, embora seja o desejo de todos.
Então, o jeito é encontrar outro caminho. Um caminho testado em vários locais do Brasil é a parceria entre os produtores, suas associações e órgãos públicos, em que os custos do assessoramento técnico são compartilhados até que a produção cresça e os produtores possam se responsabilizar por sua parcela deste custo. Essas experiências mostram que um custo, que é muito alto para o Estado, torna-se muito barato quando dividido com grupos de produtores.

Nessa parceria, faz-se um projeto temporário de assessoramento técnico, por conta do Estado, por tempo determinado, em que se age para reorganizar os produtores e o planejamento de cada propriedade e também melhorar o padrão de produção e a renda do produtor. Ao final desse período, à medida que cresce a renda, os produtores se emancipam e passam a compartilhar, entre si, o custo referente ao trabalho dos técnicos de nível médio, que efetivamente operacionalizam o assessoramento técnico.
A Emater, prefeituras, cooperativas e outras organizações interessadas compartilham, desde o início, os custos de profissionais de nível superior, tais como agrônomos, veterinários, zootecnistas e assistentes sociais, encarregados de diagnósticos, planos e metodologias. O fundamental é que se articule uma rede de inovação agrícola, integrando técnicos de nível médio e de nível superior, públicos e privados, de maneira que o trabalho de uns nutra dos outros, na manutenção desse arranjo publico – privado de assessoramento técnico, local e continuado.

A função dos técnicos de nível médio é ajudar o produtor a operacionalizar a gestão de sua propriedade, em novas bases tecnológicas e gerenciais, além de informar à rede de inovação os dados de evolução das transformações. A função dos técnicos de nível superior é atualizar e coordenar os técnicos de nível médio sobre a evolução de métodos, tecnologias, gestão e mobilizar e articular os demais segmentos das cadeias produtivas (fornecedores, compradores, processadores, logística, poder público, etc.) para a organização do entorno das fazendas de maneira a facilitar o uso de tecnologias e de gestão além do desenvolvimento regional.

Para participar de tal arranjo, a Emater Goiás está criando um Núcleo de Inteligência Territorial, capaz de decodificar a realidade produtiva local, com recursos de estatísticas, de geoprocessamento e processamento de imagens, para orientar as decisões dessa rede de inovação no melhor interesse dos produtores, com foco nas suas reais possibilidades e com metas de produção exequíveis, ajudando cada produtor a ser o protagonista de seu próprio desenvolvimento, crescendo com segurança, sem sustos e no seu próprio ritmo.
Trabalhando como gestores do conhecimento, os técnicos da Emater Goiás poderão atender a todos, num trabalho integrado e continuado. Tendo nos técnicos de nível médio o seu próprio agente de inovação, o produtor estará preparado e emancipado para fazer avançar seus projetos, sem ter descontinuidade por eventuais dificuldades do Estado. Esse é o assessoramento técnico necessário e possível que podemos realizar para o bem da agricultura de Goiás, dos produtores rurais e de suas organizações.


Fonte: Portal Revista Safra

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