Produtor mato-grossense abandona mercado de commodity e se dedica à produção de animais “sob medida”

O mercado de carne premium – cuja demanda cresce 30% ao ano, conforme estimativas de especialistas – está viabilizando um velho sonho da cadeia pecuária bovina: a “produção dirigida” ou “sob medida”. Muitos pecuaristas no País já seguem protocolos pré-definidos por parceiros frigoríficos ou varejistas, dando origem a uma nova categoria de fornecedores, que trabalha não mais centrada na sua própria visão de qualidade, mas na do consumidor. O gaúcho Carlos Miguel da Silveira, 57 anos, gestor da Agropecuária Maria da Serra, pertencente à Família Zagonel, do Rio Grande do Sul, faz parte desse grupo. Quando ele assumiu a administração das propriedades da empresa, em 2013, decidiu transformar uma delas – a Fazenda Serrinha, de 7.777 ha, localizada no município de Santo Antônio do Leverger, 40 km ao sul de Cuiabá, MT – em uma “fábrica” 100% especializada na produção de carne premium, de qualidade tão boa quanto a servida nos melhores restaurantes de São Paulo.

Não era uma tarefa simples. Durante muitos anos, a Fazenda Serrinha havia se dedicado à produção de tourinhos Nelore em pastejo extensivo. Mudar esse sistema produtivo, fazendo cruzamento de vacas Nelore PO com raças britânicas parecia loucura à primeira vista, além de demandar grande investimento em infraestrutura para intensificação de pastagens. Não havia ainda (como há hoje) um mercado tão definido para a carne de qualidade, mas Silveira conseguiu convencer os seis sócios da empresa de que precisava atacar em três frentes para melhorar a rentabilidade de seu negócio: aumentar a quantidade de animais comercializados; girar rapidamente a produção, o que era mais fácil com gado de corte; e agregar valor ao produto. “Após uma modificação societária feita, em 2012, nosso rebanho havia diminuído e precisávamos recompô-lo. A Fazenda Serrinha era a mais indicada para enfrentar esse desafio, por meio da intensificação”, justifica.

Silveira tinha a opção de trabalhar apenas com recria/engorda, mas não queria perder a qualidade genética incorporada ao plantel Nelore após anos de seleção. A cria também lhe parecia fundamental para viabilizar um projeto de carne premium, que pretendia abater 400 cruzados precoces/mês, próprios e adquiridos de terceiros. Para isso, ele decidiu produzir desde o sêmen (tem touros em central) até o animal gordo. Dos 3.015 bovinos vendidos em 2017, 86% (2.593) eram cruzados. Os 14% restantes eram vacas de descarte, alguns reprodutores Nelore e garrotes dessa raça oriundos de repasse, que são vendidos à desmama (não ficam na fazenda). Em 2017, 90% dos cruzados terminados foram vendidos à rede de restaurantes Outback e o restante à VPJ Alimentos, de SP, além de projetos regionais, como o do Frigorífico Boi Branco, de Cuiabá. DBO pôde conferir (na grelha e no prato) a alta qualidade dessa carne, que permite ao pecuarista vender novilhas a preço de boi e novilhos com ágio de 12%/@.

Decisão embasada

A decisão de Silveira de produzir 100% de seus bois “sob medida” para clientes exigentes não foi gratuita. “Percebi que havia uma procura crescente por carne de qualidade e pouca oferta, o que garantia bons prêmios ao produtor”, salienta. Roberto Barcellos, da Beef & Veal Consultoria, de Botucatu, SP, confirma esse diagnóstico. Segundo ele, após longo processo de “maturação”, o mercado de carne de qualidade começou a ganhar consistência, chamando, inclusive, a atenção dos frigoríficos (veja reportagem à pág 32). “A tendência desse segmento é de se estratificar, como ocorreu com os vinhos. Nos anos 90, muita gente no Brasil tomava o vinho da garrafa azul [o alemão Liebfraumilch], que frequentava orgulhosamente formaturas e festas, mas, assim que as pessoas começaram a buscar mais informações sobre vinhos, descobriram uma infinidade de opções superiores e o mercado se estratificou em níveis. É o que começa a acontecer com a carne. O mercado ainda vai crescer muito, para depois se estratificar”, prevê Barcellos.

A boa notícia para o produtor, diz ele, é que a demanda se manterá firme nos próximos 10 anos, mas será preciso fazer uma escolha entre a “pecuária da eficiência” e a “pecuária da qualidade”, porque a melhor carne frequentemente não é fornecida pelo animal de melhor performance. Um sinônimo de eficiência, segundo o consultor, é o boi 7-7-7: machos inteiros produzidos a pasto ou terminados rapidamente em confinamento, abatidos com 21@ aos 24 meses, com gordura mínima exigida pelos frigoríficos ( 3 a 6 mm). “Esse animal é excelente, mas não atende nichos de carne premium, que demandam carcaças muito bem acabadas (6 a 10 mm de gordura subcutânea), com marmoreio, maciez garantida, pH baixo e coloração vermelho-cereja. Para produzi- las, é preciso castrar os animais e confiná-los por mais tempo, aumentando a energia na dieta de terminação, o que eleva os custos”, diz Barcellos.

Miguel Silveira estava ciente desse dilema quando decidiu trilhar a vereda mais difícil (e mais arriscada) da “pecuária da qualidade”, cujos prêmios nem sempre compensam o maior custo de produção. Após várias tratativas, no entanto, ele conseguiu se associar à Fazendas São Marcelo, do grupo mato-grossense JD, sediada em Tangará da Serra, MT, que acabara de fechar contrato de fornecimento com o Outback e precisava de um parceiro. “Juntos, podíamos fornecer um número de animais que justificasse abates mensais para a rede na planta do Marfrig, em Tangará”, conta o produtor. Ele assumiu o compromisso de fornecer no mínimo 180 fêmeas e machos cruzados por mês ao Outback. “A experiência tem sido ótima”, garante. Silveira ainda está analisando o impacto da castração sobre o ganho de peso dos machos, mas acredita que a lucratividade de seu negócio é garantida, inclusive porque o mercado de carne premium é menos sujeito a oscilações de preços do que o de carne commodity.

*Matéria originalmente publicada na edição 450 da Revista DBO



Fonte: dbo

Produtor mato-grossense abandona mercado de commodity e se dedica à produção de animais “sob medida”

Todo esse protocolo nutricional tem um custo, mas a grande incógnita do sistema continua sendo a castração. “Considerando-se que o concentrado, na fase final de recria, sai por R$ 2/cab e o valor do quilo de bezerro seja de R$ 5,50, temos um saldo positivo de R$ 2,5 por kg, se o animal ganhar em média 800 g/cab/dia. Portanto, vale a pena suplementar, mas não sabemos se o macho cruzado, que agora está sendo castrado logo após o nascimento, vai apresentar esse desempenho”, diz Eduardo Catuta, técnico da Novanis que assessora a propriedade.

Silveira decidiu castrar os bezerros recém-nascidos, quando são levados ao curral para fazer a cura do umbigo, a identificação com brincos eletrônicos e a tatuagem na orelha, porque ele acredita que a castração, nessa idade, eleva a qualidade da carne. Para contabilizar o impacto econômico da prática, contudo, o produtor separou dois lotes de animais inteiros e castrados para acompanhamento até o abate. “Dizem que os últimos engordam menos, mas quanto? Quero ter meus próprios números”, salienta.

Segundo Catuta, alguns projetos de carne de qualidade têm relatado perda de 25% na eficiência alimentar devido à castração, mas esse percentual pode ser até maior. “Em fazendas que fazem carne commodity em sistema intensivo, machos Angus/Nelore jovens, inteiros, têm entrado com 380 a 420 kg no confinamento e saído aos 18 meses com 22@, em média, após 106 dias de engorda, ganhando 3@ a mais do que na Serrinha. O prêmio para fêmeas e castrados destinados à produção de carne premium precisa compensar essa perda”, defende o técnico, lembrando que o macho inteiro permite colocar mais @/cab, enquanto o castrado, a partir de certo momento, começa a depositar muita gordura e precisa ser abatido.

Miguel concorda que há uma disparidade entre as duas categorias animais, mas não acredita que seja tão grande. “Vamos ver. Pelas minhas contas, hoje me sobram R$ 700/cab, o que considero um bom retorno. Quando eu tiver todos os números na mão, poderei avaliar melhor essa questão, mas, no ano passado, consegui uma média de R$ 154/@, ante R$ 135/@ do boi commodity, 14% a mais”, argumenta o produtor, reforçando sua opção pela produção dirigida. Ele já tem sistema de rastreabilidade interna, mas pretende se inscrever na Lista Traces (fazendas aptas a exportar para a União Europeia) para que seus animais tenham preferência no abate. “Os rastreados são os primeiros a entrar na escala, o que reduz o estresse. Minha preocupação com bem-estar vai do nascimento ao curral de espera do frigorífico”, justifica.

Silveira gosta de repetir uma sábia sentença: “Fazer bem feito ou mal feito dá o mesmo trabalho; então, por que não caprichar?”. O produtor também espera que a rastreabilidade oficial possa lhe abrir mais mercados. “Olho sempre para frente”, diz.

Confira as matérias anteriores:

Fábrica de carne premium – Parte I

Fábrica de carne premium – Parte II – Pilares do Projeto

*Matéria originalmente publicada na edição 450 da Revista DBO




Fonte: srm

Produtor mato-grossense abandona mercado de commodity e se dedica à produção de animais “sob medida”

Leia as outras partes em:

+ Fábrica de carne premium – Parte I
+ Fábrica de carne premium – Parte II – Pilares do Projeto
+ Fábrica de carne premium – Parte III – Castração

Apesar dos investimentos em suplementação, a Fazenda Serrinha continua tendo o pasto como principal componente da dieta. Os animais cruzados, por exemplo, comem somente ponta de capim. Entre 600 e 900 fêmeas são recriadas em um módulo rotacionado de 80 ha, área menor do que a dos machos, porque elas logo atingem os 300 kg exigidos para entrada na terminação (giram rápido). Já os garrotes são concentrados em um grande módulo de rotacionado, que ocupa 230 ha, subdividido em 10 piquetes de 23 ha cada. Formado com mombaça (80%) e braquiária (20%), ele foi projetado pelo agrônomo Leopoldo Oliveira dos Reis, da empresa Voitec – Tecnologia em Voisin, de Bagé, RS, que também é instrutor do Serviço de Aprendizagem Rural (Senar). O projeto é totalmente setorizado. Foi montado em local mais afastado, no extremo norte da fazenda, para evitar contato dos machos com as matrizes, pois, à época, eles eram castrados somente ao final da recria, já na puberdade. Somente no final do ano passado, Silveira começou a castrá-los ao nascimento.

Por ocasião da visita de DBO, em fevereiro passado, o módulo abrigava um único lote de 1.010 novilhos, mas a meta é nela rotacionar 2.000 machos. Como o lote é grande, Reis projetou as instalações, junto com Silveira, para que os animais não precisassem caminhar muito em busca de suplemento e água. O módulo possui três áreas de lazer munidas de cochos cobertos, feitos para durar a vida inteira (veja abaixo). Os animais usam a praça mais próxima do piquete que estão pastejando. Essa estrutura também possibilita dividir o módulo em três, caso seja necessário trabalhar com mais lotes. Os bebedouros ficam fora da área de lazer. Eles foram distribuídos estrategicamente, de três em três, na divisa de alguns piquetes, para facilitar a dessedentação, conforme mostra a ilustração. “Não pode faltar água de qualidade para os animais”, salienta o produtor, que construiu um reservatório de 500.000 litros para abastecer 15 bebedouros de 7.000 l cada.

Redenção da cerca elétrica

O projeto de rotacionado dos machos é relativamente novo. Silveira conheceu Reis, em 2016, após visitar um projeto orientado por ele, a Estância Ana Paula, em Aceguá, no Uruguai. “São 5.500 ha divididos em piquetes de 2 ha cada, formando uma malha perfeita, tudo com cerca elétrica e tudo funcionando com perfeição”, relata o pecuarista, que, a partir daí, decidiu apostar para valer na eletrificação, apesar das opiniões contrárias. “Conhece aquela história do peixe sem cabeça que a mulher fazia porque a mãe dela preparava assim, a avó, a bisavó, sem que ninguém soubesse por quê? É a mesma coisa com a cerca elétrica. Repetem que ela não funciona, sem questionar o que fizeram errado lá atrás”, exemplifica. Segundo Silveira, somente a cerca elétrica segura os animais Angus. “Se fossem inteiros, talvez nem ela segurasse; são terríveis. Faço castração também por isso. Como eu daria conta de 2.000 machos inteiros em uma fazenda com 4.000 vacas e 2.000 novilhas entrando em serviço?”.

la história do peixe sem cabeça que a mulher fazia porque a mãe dela preparava assim, a avó, a bisavó, sem que ninguém soubesse por quê? É a mesma coisa com a cerca elétrica. Repetem que ela não funciona, sem questionar o que fizeram errado lá atrás”, exemplifica. Segundo Silveira, somente a cerca elétrica segura os animais Angus. “Se fossem inteiros, talvez nem ela segurasse; são terríveis. Faço castração também por isso. Como eu daria conta de 2.000 machos inteiros em uma fazenda com 4.000 vacas e 2.000 novilhas entrando em serviço?”.

O projeto de rotacionado intensivo tem viabilizado a compra de bezerros cruzados para ajustar (ou aumentar) a oferta mensal de animais (veja quadro sobre parceiros). Na seca, os animais são terminados em confinamento, recebendo ração à base de silagem de milho, farelos de milho, sorgo e soja, mais núcleo mineral. Nas águas, engordam em semiconfinamento, muitas vezes em lotes misturados de fêmeas com machos, já que estes são castrados. Para dar maior impulso aos pastos na entrada das águas, Leopoldo Reis recomendou roçar aqueles que têm maior dificuldade de rebrota. Muitos técnicos consideram essa prática um indicador de erro no manejo, mas o agrônomo gaúcho pensa diferente. Segundo ele, no Centro-Oeste, as gramíneas demoram muito a rebrotar porque ficam cheias de folhas amarelas provenientes da seca e gastam carbono para eliminá-las, antes de emitir folhas novas. “Ao roçar, liberamos o capim para a rebrota e ainda incorporamos matéria orgânica ao solo. Na sequência, adubamos. Com isso, antecipamos bastante o pastejo e damos novo fôlego ao capim”, frisa o consultor.

Reforma com agricultura

Outra medida importante tomada por Silveira foi reformar pastos degradados com ajuda da lavoura. Nesta safra, ele cultivou 286 ha de milho para silagem, dos quais 60 ha foram tomados emprestados do módulo de rotacionado dos machos. Neste verão, o lote rodou em apenas oito de seus 10 piquetes, ou seja, ficou em 170 ha, com lotação de 4,4 UA/ha. Depois da colheita do milho, esses 60 ha foram semeados com mombaça e convert, voltando a integrar o módulo, que deverá ganhar mais dois piquetes em breve, totalizando 12. “Nossa proposta é ir mudando as áreas de plantio de milho, para recuperar toda a fazenda a custo baixo. O capim aproveita a adubação residual da lavoura. Basta aplicar um dessecante, dar uma nivelada para incorporação da matéria orgânica, e semear o capim em plantio direto”, afirma o produtor.

Nas áreas reformadas, quando há sobra de forragem, faz-se feno. “Devemos produzir, neste ano, entre 2.500 a 3.000 t, em uma área de mombaça. Os fardos são fornecidos a pasto, na seca, para as vacas em reprodução”, explica Silveira, que chegou a pensar em fazer lavoura de soja na fazenda, mas concluiu que a pecuária profissionalizada, no mesmo nível da agricultura, era um negócio mais seguro e talvez mais lucrativo, além de exigir menos investimento. “O custo de plantio da soja, hoje, é de US$ 2000/ha. Se eu aplicar US$ 1.000/ha na pecuária, vai chover boi”, diz o produtor, que quer faturar R$ 15 milhões/ano somente com pecuária. Esse número será atingido com intensificação contínua e agregação de valor ao produto. “Para conseguirmos esse faturamento vendendo fêmea a R$ 125/@, precisaríamos de 7.272 cabeças, enquanto vendendo a R$ 150/@, bastam 5.550 animais, 2.200 a menos. A estrutura e o custo fixo são os mesmos se eu faturar R$ 5 milhões ou R$ 15 milhões. Não tem saída, tem de agregar valor”, defende.

Parceiros ajudam a equacionar a oferta

Para ampliar suas vendas de cruzados para nichos de carne Premium, Carlos Miguel da Silveira conta com pelo menos cinco parceiros féis, que lhe fornecem bezerros desmamados ou garrotes no padrão desejado. Um deles é Cleudemir Fávaro, proprietário das Fazendas Luar do Pontal, em Alto Paraguai, e Serra Azul, em Rosário do Oeste, ambas no Mato Grosso. Toda a produção de bezerros cruzados da segunda propriedade é vendida para Silveira. “Devemos fornecer 500 animais ao Miguel neste ano, mas em 2019 serão 1.000”, informa Fávaro, que faz IATF em 100% das matrizes e utiliza ferramentas como o pastejo voisin e a suplementação a pasto para produzir animais de melhor padrão.

Segundo ele, o mercado de carne premium valoriza quem investe em tecnologia. Para atingir sua meta de abater 400 bovinos cruzados/mês, Silveira terá de comprar pelo menos 1.800 animais por ano (150/mês), já que pretende produzir outros 3.000. Em 2017, somente no segundo semestre, já comprou 1.682 cabeças. Como troca muita informação com o parceiros, Silveira procura auxiliá-los, sempre que possível, em questões como manejo alimentar, genética e sanidade, para que lhe forneçam bezerros padronizados, vendidos por quilo. “Nosso objetivo é comprar sempre produção boa”, diz.

*Matéria originalmente publicada na edição 450 da Revista DBO.



Fonte: dbo

Produtor mato-grossense abandona mercado de commodity e se dedica à produção de animais “sob medida”

Leia as outras partes em:

+ Fábrica de carne premium – Parte I
+ Fábrica de carne premium – Parte II – Pilares do Projeto
+ Fábrica de carne premium – Parte III – Castração

Apesar dos investimentos em suplementação, a Fazenda Serrinha continua tendo o pasto como principal componente da dieta. Os animais cruzados, por exemplo, comem somente ponta de capim. Entre 600 e 900 fêmeas são recriadas em um módulo rotacionado de 80 ha, área menor do que a dos machos, porque elas logo atingem os 300 kg exigidos para entrada na terminação (giram rápido). Já os garrotes são concentrados em um grande módulo de rotacionado, que ocupa 230 ha, subdividido em 10 piquetes de 23 ha cada. Formado com mombaça (80%) e braquiária (20%), ele foi projetado pelo agrônomo Leopoldo Oliveira dos Reis, da empresa Voitec – Tecnologia em Voisin, de Bagé, RS, que também é instrutor do Serviço de Aprendizagem Rural (Senar). O projeto é totalmente setorizado. Foi montado em local mais afastado, no extremo norte da fazenda, para evitar contato dos machos com as matrizes, pois, à época, eles eram castrados somente ao final da recria, já na puberdade. Somente no final do ano passado, Silveira começou a castrá-los ao nascimento.

Por ocasião da visita de DBO, em fevereiro passado, o módulo abrigava um único lote de 1.010 novilhos, mas a meta é nela rotacionar 2.000 machos. Como o lote é grande, Reis projetou as instalações, junto com Silveira, para que os animais não precisassem caminhar muito em busca de suplemento e água. O módulo possui três áreas de lazer munidas de cochos cobertos, feitos para durar a vida inteira (veja abaixo). Os animais usam a praça mais próxima do piquete que estão pastejando. Essa estrutura também possibilita dividir o módulo em três, caso seja necessário trabalhar com mais lotes. Os bebedouros ficam fora da área de lazer. Eles foram distribuídos estrategicamente, de três em três, na divisa de alguns piquetes, para facilitar a dessedentação, conforme mostra a ilustração. “Não pode faltar água de qualidade para os animais”, salienta o produtor, que construiu um reservatório de 500.000 litros para abastecer 15 bebedouros de 7.000 l cada.

Redenção da cerca elétrica

O projeto de rotacionado dos machos é relativamente novo. Silveira conheceu Reis, em 2016, após visitar um projeto orientado por ele, a Estância Ana Paula, em Aceguá, no Uruguai. “São 5.500 ha divididos em piquetes de 2 ha cada, formando uma malha perfeita, tudo com cerca elétrica e tudo funcionando com perfeição”, relata o pecuarista, que, a partir daí, decidiu apostar para valer na eletrificação, apesar das opiniões contrárias. “Conhece aquela história do peixe sem cabeça que a mulher fazia porque a mãe dela preparava assim, a avó, a bisavó, sem que ninguém soubesse por quê? É a mesma coisa com a cerca elétrica. Repetem que ela não funciona, sem questionar o que fizeram errado lá atrás”, exemplifica. Segundo Silveira, somente a cerca elétrica segura os animais Angus. “Se fossem inteiros, talvez nem ela segurasse; são terríveis. Faço castração também por isso. Como eu daria conta de 2.000 machos inteiros em uma fazenda com 4.000 vacas e 2.000 novilhas entrando em serviço?”.

la história do peixe sem cabeça que a mulher fazia porque a mãe dela preparava assim, a avó, a bisavó, sem que ninguém soubesse por quê? É a mesma coisa com a cerca elétrica. Repetem que ela não funciona, sem questionar o que fizeram errado lá atrás”, exemplifica. Segundo Silveira, somente a cerca elétrica segura os animais Angus. “Se fossem inteiros, talvez nem ela segurasse; são terríveis. Faço castração também por isso. Como eu daria conta de 2.000 machos inteiros em uma fazenda com 4.000 vacas e 2.000 novilhas entrando em serviço?”.

O projeto de rotacionado intensivo tem viabilizado a compra de bezerros cruzados para ajustar (ou aumentar) a oferta mensal de animais (veja quadro sobre parceiros). Na seca, os animais são terminados em confinamento, recebendo ração à base de silagem de milho, farelos de milho, sorgo e soja, mais núcleo mineral. Nas águas, engordam em semiconfinamento, muitas vezes em lotes misturados de fêmeas com machos, já que estes são castrados. Para dar maior impulso aos pastos na entrada das águas, Leopoldo Reis recomendou roçar aqueles que têm maior dificuldade de rebrota. Muitos técnicos consideram essa prática um indicador de erro no manejo, mas o agrônomo gaúcho pensa diferente. Segundo ele, no Centro-Oeste, as gramíneas demoram muito a rebrotar porque ficam cheias de folhas amarelas provenientes da seca e gastam carbono para eliminá-las, antes de emitir folhas novas. “Ao roçar, liberamos o capim para a rebrota e ainda incorporamos matéria orgânica ao solo. Na sequência, adubamos. Com isso, antecipamos bastante o pastejo e damos novo fôlego ao capim”, frisa o consultor.

Reforma com agricultura

Outra medida importante tomada por Silveira foi reformar pastos degradados com ajuda da lavoura. Nesta safra, ele cultivou 286 ha de milho para silagem, dos quais 60 ha foram tomados emprestados do módulo de rotacionado dos machos. Neste verão, o lote rodou em apenas oito de seus 10 piquetes, ou seja, ficou em 170 ha, com lotação de 4,4 UA/ha. Depois da colheita do milho, esses 60 ha foram semeados com mombaça e convert, voltando a integrar o módulo, que deverá ganhar mais dois piquetes em breve, totalizando 12. “Nossa proposta é ir mudando as áreas de plantio de milho, para recuperar toda a fazenda a custo baixo. O capim aproveita a adubação residual da lavoura. Basta aplicar um dessecante, dar uma nivelada para incorporação da matéria orgânica, e semear o capim em plantio direto”, afirma o produtor.

Nas áreas reformadas, quando há sobra de forragem, faz-se feno. “Devemos produzir, neste ano, entre 2.500 a 3.000 t, em uma área de mombaça. Os fardos são fornecidos a pasto, na seca, para as vacas em reprodução”, explica Silveira, que chegou a pensar em fazer lavoura de soja na fazenda, mas concluiu que a pecuária profissionalizada, no mesmo nível da agricultura, era um negócio mais seguro e talvez mais lucrativo, além de exigir menos investimento. “O custo de plantio da soja, hoje, é de US$ 2000/ha. Se eu aplicar US$ 1.000/ha na pecuária, vai chover boi”, diz o produtor, que quer faturar R$ 15 milhões/ano somente com pecuária. Esse número será atingido com intensificação contínua e agregação de valor ao produto. “Para conseguirmos esse faturamento vendendo fêmea a R$ 125/@, precisaríamos de 7.272 cabeças, enquanto vendendo a R$ 150/@, bastam 5.550 animais, 2.200 a menos. A estrutura e o custo fixo são os mesmos se eu faturar R$ 5 milhões ou R$ 15 milhões. Não tem saída, tem de agregar valor”, defende.

Parceiros ajudam a equacionar a oferta

Para ampliar suas vendas de cruzados para nichos de carne Premium, Carlos Miguel da Silveira conta com pelo menos cinco parceiros féis, que lhe fornecem bezerros desmamados ou garrotes no padrão desejado. Um deles é Cleudemir Fávaro, proprietário das Fazendas Luar do Pontal, em Alto Paraguai, e Serra Azul, em Rosário do Oeste, ambas no Mato Grosso. Toda a produção de bezerros cruzados da segunda propriedade é vendida para Silveira. “Devemos fornecer 500 animais ao Miguel neste ano, mas em 2019 serão 1.000”, informa Fávaro, que faz IATF em 100% das matrizes e utiliza ferramentas como o pastejo voisin e a suplementação a pasto para produzir animais de melhor padrão.

Segundo ele, o mercado de carne premium valoriza quem investe em tecnologia. Para atingir sua meta de abater 400 bovinos cruzados/mês, Silveira terá de comprar pelo menos 1.800 animais por ano (150/mês), já que pretende produzir outros 3.000. Em 2017, somente no segundo semestre, já comprou 1.682 cabeças. Como troca muita informação com o parceiros, Silveira procura auxiliá-los, sempre que possível, em questões como manejo alimentar, genética e sanidade, para que lhe forneçam bezerros padronizados, vendidos por quilo. “Nosso objetivo é comprar sempre produção boa”, diz.

*Matéria originalmente publicada na edição 450 da Revista DBO.



Fonte: dbo

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